Por: Gustavo Mendonça
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Desde a revolução industrial, jamais o capital intelectual foi tão crucial quanto hoje para garantir a sobrevivência das empresas. À medida que a administração de empresas evoluiu do estudo dos processos produtivos para o estudo das estratégias competitivas, a informação passou a ser o grande diferencial das companhias aptas à permanência no mercado.
Podemos citar como exemplo de mudança, dentro do escopo da administração empresarial, o impacto da tecnologia da informação nos processos de gestão e na sociedade. Empresas tradicionais, a partir do momento em que o computador foi inserido nos processos produtivos e nas relações de consumo, precisaram lidar com duas consequências inevitáveis: a necessidade constante de revisão das tarefas envolvidas na entrega de valor ao cliente e a redução do ciclo de vida do produto – cada vez mais vulnerável à competitividade do mercado.
Dentro desta nova realidade, como as empresas mantém sua competitividade perante as novas demandas do mercado? Para responder esta questão as empresas precisam investir cada vez mais na gestão de inovação como diferencial competitivo e ter uma sólida estratégia de negócios que oriente seu desenvolvimento.
Este novo ambiente gerou reflexos diferentes no pensamento da administração. Um deles foi o surgimento de novos sistemas de gestão estratégica, dentre os quais se destaca o Balanced Scorecard (BSC). Outro foi a criação de produtos empresariais derivados diretamente das novas tecnologias de informação visando aperfeiçoar os processos de tomadas de decisão, estes representados principalmente pelos sistemas de Business Intelligence (BI). Ambos abordam o uso da informação para melhorar os processos: o primeiro na criação e seleção de indicadores estratégicos para a mensuração das metas e objetivos da empresa, o segundo na mineração de dados relevantes a serem processados em informação através da tecnologia. Mas até que ponto BSC e BI podem ser utilizados em conjunto para potencializar os resultados estratégicos a serem atingidos pelas empresas?
O Balanced Scorecard, metodologia desenvolvida pelos consultores Robert Kaplan e David Norton, é atualmente um dos sistemas de gestão mais utilizados no meio empresarial. A principal característica do BSC é relacionar os tradicionais indicadores financeiros a outros indicadores de competências dentro das organizações, criando um sistema de quatro perspectivas de eficácia estratégica relacionadas entre si: finanças, clientes, processos e aprendizado. Entretanto, a implantação do Balanced Scorecard nas empresas é um processo que gera inquietação. Até 2007, metade das iniciativas de adoção do BSC atingiram resultados aquém do esperado. Estes casos evidenciam a necessidade das empresas de atualizarem o papel que atribuem à área de Tecnologia da Informação (TI), através do fato de que novos sistemas de gestão requerem sistemas de informação condizentes com novas necessidades estratégicas.
Em virtude disso, diversos fornecedores de TI enxergaram uma nova oportunidade. Passaram então a desenvolver sistemas de Business Intelligence relacionados com a metodologia do BSC, aumentando as chances de sucesso na adoção do sistema de gestão. Alguns sistemas de BI possuem módulos complementares de BSC, outros são inteiramente voltados para a sua implantação e utilização. É função de toda a empresa identificar qual é a sua demanda de sistemas de BI para o sucesso da implantação do BSC.
Robert Kaplan e David Norton lançaram o conceito do Balanced Scorecard em meados dos anos 90. É um sistema de medição de desempenho baseado em indicadores relacionados a áreas financeiras e operacionais, em contraposição à mensuração puramente financeira tradicional. Os indicadores são definidos de forma equilibrada em quatro perspectivas: financeira, do cliente, dos processos internos e de aprendizado e crescimento. É importante ressaltar que uma empresa, antes de implantar o BSC, precisa ter uma estratégia definida. Caso contrário, a mensuração dos indicadores torna-se vazia, pois não se pode determinar a contribuição dos mesmos para a empresa mesmo que atinjam as metas satisfatoriamente.
O sistema foi desenvolvido pensando na importância que a administração estratégica já representava às empresas naquela época. Assim, eles relacionaram as perspectivas em um enfoque de planejamento top-down para que o sistema se alinhasse com as necessidades financeiras das empresas, apesar de preocuparem-se igualmente com outros aspectos. Na prática, isso significa que as quatro perspectivas contribuem de formas equilibradas e distintas para as empresas.
A perspectiva financeira, tal qual na abordagem tradicional da administração, é o fim último de todo o sistema, determinando o sucesso da empresa. Entretanto, no BSC os objetivos financeiros são necessariamente consequências da perspectiva de clientes, como a abordagem estratégica em um ambiente de negócios altamente competitivo como o atual exige. Uma empresa cujos resultados financeiros são atingidos de forma desvinculada dos resultados da relação com os clientes é considerada, de acordo com o BSC, uma empresa que não atinge os objetivos. Da mesma forma que as finanças são consequências das relações da empresa no mercado, a perspectiva dos clientes é relacionada diretamente com a perspectiva de processos, responsável pelas práticas que diferenciam a empresa e criam as vantagens competitivas. Por sua vez, processos capazes de potencializar os resultados operacionais de vendas só podem ser criados e implantados por pessoas capacitadas para tanto, relacionando diretamente a perspectiva de processos com a perspectiva de aprendizado.
No BSC o início do processo de gestão estratégica está na perspectiva de aprendizado, que vai para a perspectiva de processos, prossegue para a perspectiva de clientes e culmina na perspectiva financeira. Em termos táticos, são os próprios indicadores que garantem a coesão linear entre as perspectivas. Para isso, eles são elaborados de forma que o resultado de cada indicador seja fonte para o atingimento de metas do indicador seguinte, estabelecendo dentro do BSC relações de causa e efeito que garantem o equilíbrio das perspectivas almejado pelo sistema.
Isso nos permite identificar as vantagens que o BSC pode trazer às empresas. A primeira delas é facilitar para toda a companhia a compreensão da estratégia assumida pela alta direção. Funcionários que tem uma visão clara da estratégia assumida pela empresa percebem claramente sua importância dentro da organização, facilitando a criação de ações necessárias e aumentando o índice de produtividade dos mesmos. Outra vantagem é a ênfase que o BSC dá à busca de inovação, através das perspectivas de aprendizado e processos. Ao colocar estas perspectivas no início da cadeia, o BSC fomenta a capacidade de inovação das empresas, seja em processos internos ou em produtos e serviços, pois a transforma em fonte primeira da rentabilidade financeira a ser atingida pela empresa. Outro bem valorizado através do BSC é o capital intelectual, pois só com ele o aprendizado dos processos necessários à satisfação dos clientes e consequente retorno financeiro é possível. Em resumo, o BSC integra eficazmente no processo produtivo das empresas as três condições essenciais de competitividade no mercado: pensamento estratégico, capacidade de inovação e conhecimento.
Em virtude do que é o BSC, ele precisa ser implantado pela alta direção das empresas. Afinal, ela é a responsável pela estratégia da companhia, portanto ela tem a prerrogativa de alinhar o BSC ao planejamento estratégico. Ressaltando que, antes de uma empresa implantar o BSC, é necessário implantar a estratégia que orientará o uso do sistema.
Em função da estratégia definida – que se torna visível na empresa através da visão e missão declaradas – o próximo passo é identificar, dentro da organização, as relações entre as diferentes unidades de negócio que integram toda a atividade empresarial. Muitas vezes, a contribuição de cada uma para o resultado final da empresa é envolta por uma nebulosidade de dúvidas. O papel de cada unidade de negócios no processo produtivo nem sempre é claro. É fundamental que isso seja esclarecido, para que na fase de elaboração do BSC as relações de causa e efeito dos indicadores sejam identificadas. É também nesse momento em que, de acordo com a estratégia adotada, são determinados os fatores críticos de sucesso para a empresa.
Evidentemente, de nada adianta elaborar estratégia, descobrir relações entre as unidades de negócios e definir fatores críticos se a empresa não tiver meios de mensuração dos indicadores escolhidos. Similarmente, a comunicação interna também tem papel de destaque na transmissão dos objetivos a partir da alta administração para os níveis operacionais.
Com isso, é possível perceber que, apesar da promessa de um desempenho empresarial promissor através do BSC, as dificuldades para a implantação do sistema podem ser muitas. Para além do fator cultural, a complexidade de certas organizações tenderia a inviabilizar o sistema, não fosse o atual estágio da tecnologia da informação que hoje fornece ferramentas que minimizam esses problemas.
O conceito de Business Intelligence remonta ao séc XVI, quando a Rainha Elizabeth I, visando ocupar os territórios conquistados, determinou que a base da força inglesa fosse “informação e comércio” e solicitou ao filósofo Francis Bacon que inventasse um sistema dinâmico de informação, o qual foi amplamente aplicado pelos ingleses. Tecnologicamente falando, alguns associam a origem da BI ao desenvolvimento da microinformática, o que possibilitou às áreas corporativas não relacionadas a TI empregarem através de computadores as primeiras análises de dados e cruzamento de informações dentro da empresa. Basicamente é isso que significa BI nos dias de hoje: desenvolvimento tecnológico que facilita a “captação, extração, armazenamento, filtragem, disponibilidade e personalização dos dados”. Se por um lado o surgimento do computador pessoal iniciou a BI, os Data Warehouses impulsionaram a amplitude de suas aplicações empresariais a ponto de hoje constituir uma série de ferramentas gerencial quase imprescindível. Mais recentemente, a computação em nuvem facilitou a muitas empresas o acesso a estes sistemas de informação. Dentre os vários aplicativos de BI podemos citar Data Marts, Data Mining, Ferramentas OLAP, entre outras. Inclusive os sistemas de ERP, que representam “os sistemas integrados de gestão empresarial cuja função é facilitar o aspecto operacional das empresas” estão associados à BI.
Como as ferramentas de BI são necessariamente voltadas para a tomada de decisão através da análise de dados e informações, a integração com o BSC torna-se natural. A principal contribuição que um sistema de BI pode fornecer ao BSC, em termos genéricos, é viabilizar o acesso às informações que vão permitir a mensuração dos indicadores de operação. Especificamente, os benefícios da BI ao BSC são indiretos, pois os sistemas de BI são implantados em função do fluxo de informações que uma empresa precisa desenvolver para integrar adequadamente as unidades de negócios. Assim como o BSC está para a estratégia, a BI está para a estrutura.
Os responsáveis pela implantação do Balanced Scorecard precisam estar cientes das características dos sistemas de Business Intelligence que as empresas possuem ou pretendem instalar. Em contra-partida, a instalação de um sistema de BI deve contemplar a viabilidade de um BSC ou outro sistema de gestão baseado em mensuração de desempenho.
Os principais fornecedores de sistemas de BI disponíveis no mercado possuem sistemas com características distintivas entre si, possibilitando uma escolha criteriosa por parte dos profissionais envolvidos com o desenvolvimento de um sistema de BSC.
Todas as particularidades dos sistemas devem ser consideradas, tanto em função das necessidades estratégicas, quanto em função do estágio de desenvolvimento de TI em que a empresa está. Entretanto, é importante lembrar que um sistema de BI não torna possível por si só a implantação de um sistema BSC. Os processos são distintos, ainda que o planejamento de um possa facilitar a execução do outro e vice-versa. Os sistemas de Business Intelligence podem colaborar na implantação do Balanced Scorecard de acordo com a complexidade dos processos produtivos e relações entre as unidades de negócio existentes. O que vai determinar a importância de um sistema de BI em relação ao BSC é o estágio de desenvolvimento de TI em cada empresa a ser trabalhada.
No final das contas, o objetivo final de uma empresa que decide pela gestão estratégica através do Balanced Scorecard deve ser a fomentação das condições essenciais de competitividade no ambiente de negócios atual: conhecimento, inovação e pensamento estratégico. Com isso, o desenvolvimento dos sistemas de Business Intelligence em uma empresa torna-se cada vez mais crítico, podendo ser um fator limitante ou viabilizador das condições de competitividade citadas.
Referências bibliográficas:
ABREU, Renato Araújo. “Planejamento Estratégico do Negócio Utilizando os Conceitos do Balanced Scorecard”. 27 nov. 2002
AMBROSIO, Eduardo et al. “Desenvolvimento e aplicação da metodologia baseada no Balanced Scorecard em uma empresa de logística”. In: X Simpep – Simpósio de Engenharia de Produção. Disponível em: <http://www.simpep.feb.unesp.br/anais10/gestaodainformacao/arq08.PDF>. Acesso em: 14 set. 2004.
“Business Inteligence Módulo 1 – discutindo origens e conceitos”. Disponível em http://www.nextg.com.br. Acesso em: 08 de set. de 2006.
Sobre o Autor:
Gustavo Mendonça, 37 anos é Bacharel em Propaganda e Marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing – ESPM e Especialista em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas – FGV. Desde 2000 atua nas áreas de e-business, projetos de e-commerce e CRM, além da execução de brand strategies e promoção de eventos culturais. Foi professor de Administração Mercadológica do Instituto Nacional de Ensino Superior e Pesquisa – INESP entre 2009 e 2010. Atualmente presta serviços de consultoria em marketing junto ao CDI – Comitê para a Democratização da Informática.